Acorde em uma caldeira gigante, e
você saberá pelo que ela passou. Acordou sentindo seus pés no metal frio, e as
mãos cobriam os olhos para não ver. O cheiro é de enxofre, e de carne queimada.
Ouvem-se gritos ao longe, e os gritos entram pelos ouvidos como agulhas finas e
que encontram a carne e produzem a mais aguda das dores. Ela continua repetindo
para si mesma “é apenas um sonho, eu ainda não acordei”, mas ela mesmo sabe que
está mentindo. O cheiro é real demais, os gritos são reais, e seus pés gelados
também. Suas pequenas mãos estão coladas no seu rosto, impedindo o horror externo de inundar seus olhos. Não sabe como foi parar ali, não sabe o que está acontecendo, mas sabe
que o ar pesa em seus ombros, e o terror é tangível. Estenda a mão, e você
conseguirá tocar na sua própria agonia.
Ela abre uma fenda em seus dedos
para ver aonde está, apesar de já saber antes mesmo de ver. Está na velha
caldeira abandonada, e então suas mãos deixam seu rosto para ver que há uma
distância perigosa entre o chão da caldeira e seus pés. Sabe que precisa
correr, mas não sabe para onde. Olha para cima e vê o teto enferrujado, olhando para ela com puro desdém. Olha para baixo e vê a altura nada acolhedora, e as
maquinas funcionando a plenos pulmões. O lugar parece estar vivo e espreitando,
esperando um momento de distração para atacar. Olha para os lados e vê sangue
escorrendo das paredes, mas não sente o cheiro salgado e metálico que é
característico do líquido vermelho, sente o cheiro podre de carne encontrando o
fogo. Sua cabeça procura uma explicação plausível, mas não consegue encontrar,
e seus olhos paralisam de puro terror.
Ela está na parte de cima da caldeira, onde é possível ver os tonéis enormes com algum líquido duvidoso borbulhando la embaixo. O vapor que sobe beija seu rosto deixando um ar putrefato em suas narinas. Ela anda devagar, se apoiando no corrimão pois sabe que a queda não é gentil. Encontra
um corredor que leva a salas de manutenção das caldeiras, e então vem o alívio
por não estar mais a mercê da perigosa altura que a separava do chão. Ao longe os gritos
sedem aos poucos e ela consegue ver a escada que leva ao andar de baixo. Se
conseguir descer estará perto da porta que leva a saída. Anda com toda a calma,
na ponta dos pés. Não sabe se tem alguém na caldeira, mas prefere não saber.
Anda com os olhos espertos cuidando cada canto. A cada passo
seu sangue gela um pouco e as mãos tremem. Os olhos arregalados não piscam e a
agonia sufoca a garganta.
Quando a escada se aproxima e
quando o suspiro de alívio começa a surgir, um barulho metálico começa aos
poucos até se tornar ensurdecedor, parecendo vir de dentro de sua cabeça. Um
barulho de metal arrastando metal, de garras de aço passando carinhosamente
pelo corrimão da ponte suspensa aonde estava a poucos minutos. Tem medo de se
virar pois sabe muito bem quem irá encontrar.
“Então criança, achou que viria
me visitar e eu não a convidaria para um chá? Você sabe que eu vou te pegar” O
sorriso irônico estava implícito em cada palavra. Virou-se rapidamente para ver
apenas a ponte suspensa e as caldeiras abaixo. O gelado da garra retira o
cabelo comprido dos ombros, e então ele diz “Bem vinda ao meu pesadelo”.
Começa a correr desesperadamente, mas sabe que é inútil. Os gritos deixam sua
garganta sem aviso e sem controle, o suor escorre pela testa e os olhos embaçam
até sentir seu rosto sendo lavado em lágrimas. Corre para onde há chão para
correr, e grita como se seus gritos o espantassem.
Então seus pés paralisam e de uma
entrada ao lado ele surge, deixando a luva com as garras saírem antes do corpo.
Seu sorriso irônico e genuíno é horripilante, sua face deformada, enrugada e
completamente queimada a faz arregalar os olhos. Sua roupa chamuscada, seu
chapéu preto e velho e aquela luva com garras não deixam dúvida de quem está a
sua frente. Seus olhos lentamente seguem os pés gelados da menina, sobem para as pernas trêmulas, acompanham os punhos cerrado e sobem devagar para fitar seu rosto. E então ele murmura
“Ora criança, não precisa fugir, eu não vou te machucar”. Ele olha no fundo dos
olhos dela e ela sente a agonia, o terror, o medo e todas as emoções ruins que
já sentiu misturadas em um bolo que se forma em sua garganta e explode pelos seus olhos. Ele avança e ela
grita com todo o ar que existe no seu corpo. Ele avança com os braços abertos,
seus braços ficam mais compridos a cada passo que os aproximam, ele avança com
os olhos transbordando seu sadismo, e o sorriso...