segunda-feira, 20 de julho de 2015

Bem vinda ao meu pesadelo

Acorde em uma caldeira gigante, e você saberá pelo que ela passou. Acordou sentindo seus pés no metal frio, e as mãos cobriam os olhos para não ver. O cheiro é de enxofre, e de carne queimada. Ouvem-se gritos ao longe, e os gritos entram pelos ouvidos como agulhas finas e que encontram a carne e produzem a mais aguda das dores. Ela continua repetindo para si mesma “é apenas um sonho, eu ainda não acordei”, mas ela mesmo sabe que está mentindo. O cheiro é real demais, os gritos são reais, e seus pés gelados também. Suas pequenas mãos estão coladas no seu rosto, impedindo o horror externo de inundar seus olhos. Não sabe como foi parar ali, não sabe o que está acontecendo, mas sabe que o ar pesa em seus ombros, e o terror é tangível. Estenda a mão, e você conseguirá tocar na sua própria agonia.
Ela abre uma fenda em seus dedos para ver aonde está, apesar de já saber antes mesmo de ver. Está na velha caldeira abandonada, e então suas mãos deixam seu rosto para ver que há uma distância perigosa entre o chão da caldeira e seus pés. Sabe que precisa correr, mas não sabe para onde. Olha para cima e vê o teto enferrujado, olhando para ela com puro desdém. Olha para baixo e vê a altura nada acolhedora, e as maquinas funcionando a plenos pulmões. O lugar parece estar vivo e espreitando, esperando um momento de distração para atacar. Olha para os lados e vê sangue escorrendo das paredes, mas não sente o cheiro salgado e metálico que é característico do líquido vermelho, sente o cheiro podre de carne encontrando o fogo. Sua cabeça procura uma explicação plausível, mas não consegue encontrar, e seus olhos paralisam de puro terror.
Ela está na parte de cima da caldeira, onde é possível ver os tonéis enormes com algum líquido duvidoso borbulhando la embaixo. O vapor que sobe beija seu rosto deixando um ar putrefato em suas narinas. Ela anda devagar, se apoiando no corrimão pois sabe que a queda não é gentil. Encontra um corredor que leva a salas de manutenção das caldeiras, e então vem o alívio por não estar mais a mercê da perigosa altura que a separava do chão. Ao longe os gritos sedem aos poucos e ela consegue ver a escada que leva ao andar de baixo. Se conseguir descer estará perto da porta que leva a saída. Anda com toda a calma, na ponta dos pés. Não sabe se tem alguém na caldeira, mas prefere não saber. Anda com os olhos espertos cuidando cada canto. A cada passo seu sangue gela um pouco e as mãos tremem. Os olhos arregalados não piscam e a agonia sufoca a garganta.
Quando a escada se aproxima e quando o suspiro de alívio começa a surgir, um barulho metálico começa aos poucos até se tornar ensurdecedor, parecendo vir de dentro de sua cabeça. Um barulho de metal arrastando metal, de garras de aço passando carinhosamente pelo corrimão da ponte suspensa aonde estava a poucos minutos. Tem medo de se virar pois sabe muito bem quem irá encontrar.
“Então criança, achou que viria me visitar e eu não a convidaria para um chá? Você sabe que eu vou te pegar” O sorriso irônico estava implícito em cada palavra. Virou-se rapidamente para ver apenas a ponte suspensa e as caldeiras abaixo. O gelado da garra retira o cabelo comprido dos ombros, e então ele diz “Bem vinda ao meu pesadelo”. Começa a correr desesperadamente, mas sabe que é inútil. Os gritos deixam sua garganta sem aviso e sem controle, o suor escorre pela testa e os olhos embaçam até sentir seu rosto sendo lavado em lágrimas. Corre para onde há chão para correr, e grita como se seus gritos o espantassem.
Então seus pés paralisam e de uma entrada ao lado ele surge, deixando a luva com as garras saírem antes do corpo. Seu sorriso irônico e genuíno é horripilante, sua face deformada, enrugada e completamente queimada a faz arregalar os olhos. Sua roupa chamuscada, seu chapéu preto e velho e aquela luva com garras não deixam dúvida de quem está a sua frente. Seus olhos lentamente seguem os pés gelados da menina, sobem para as pernas trêmulas, acompanham os punhos cerrado e sobem devagar para fitar seu rosto. E então ele murmura “Ora criança, não precisa fugir, eu não vou te machucar”. Ele olha no fundo dos olhos dela e ela sente a agonia, o terror, o medo e todas as emoções ruins que já sentiu misturadas em um bolo que se forma em sua garganta e explode pelos seus olhos. Ele avança e ela grita com todo o ar que existe no seu corpo. Ele avança com os braços abertos, seus braços ficam mais compridos a cada passo que os aproximam, ele avança com os olhos transbordando seu sadismo, e o sorriso...
Ela acorda ensopada, gritando. Sua mãe está ao seu lado a sacudindo. Em sua barriga há cortes que formam a seguinte frase:
Freddy está atrás de você.