sexta-feira, 16 de outubro de 2020

 Eu tenho a tua pele embaixo da minha unha, teu suspiro no meu ouvido. Tua boca vermelha e ofegante percorre os meus caminhos, e essa sensação única ecoa na minha pele, como se eu fosse um tamborim que tu toca delicadamente. Minha pele deseja, meu cabelo gruda. Enquanto a chuva toca lá fora, aqui dentro a dança é lenta. Teus olhos são como janelas para uma fantasia escondida, onde o tempo não passa. Teus olhos fixos em mim, enquanto tua mão viaja é como o ar que dança e me tira para dançar. Teu toque é vício, teu beijo é droga e eu sou qualquer coisa que tu queira.

Tua pele embaixo da minha unha, e os veios vermelhos que elas deixaram são uma história que eu queria viver todo dia. Tuas unhas curtas pressionando minhas pernas em ti contam uma história que eu não queria esquecer. 


Lembra

 Eu lembro de mim.

Eu lembro do quanto eu gosto do cheiro de leite fervido, e que é aquele cheiro que eu demoro a sentir pela carga emocional que ele traz. Eu lembro que eu não lido bem com o fluxo de emoções, pois eu não sei estar fora do meu ponto de equilibrio. 

Eu estou sempre buscando o equilibrio, quando tudo lá fora está sendo levado pelo vento. Eu lembro do meu silêncio.

Eu lembro das musicas que eu ouvia, e o que eu sentia quando elas tocavam, e como eu consigo evocar os mesmos sentimentos mesmo anos depois. Eu lembro da sensação agridoce que o sofrimento tem, que é ao mesmo tempo sufocante mas cômodo. Grandioso. 

Eu lembro de mim, de sentir desconfortável com a minha nudez, e procurar apenas defeitos no espelho. Eu conheço a pessoa atrás de toda essa insegurança, e eu sei quem ela é. Eu me deixei em cada canto, eu me espalhei em cada espelho de cada casa, e eu não juntei meus pedaços ainda. Eu deixei a água me quebrar nas pedras e eu me senti confortável assim.

Eu lembro de mim, de ver os mesmos filmes por ter medo e impaciência com o novo. Eu conheço bem a arrogância que habita em cada filme que eu vejo, na tentativa de ser culta e interessante.

Eu lembro da minha intensidade, do meu desejo obsessivo de ter alguém do meu lado, para então esquecer de mim. Eu lembro do outro, todos os dias, e esqueço de mim. Eu lembro de ter me deixado em sorrisos, de ter me esquecido em olhos que não me viam.

Eu lembro de mim. Eu lembro do quanto eu me esqueci.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Perdoa-me

 Eu não te perdoo por ter me esquecido. Eu não superei o fato de que nosso sentimento esfriou enquanto eu estava do teu lado fazendo de tudo para você me notar. Você me fez sentir insuficiente, você me fez sentir desinteressante.

Eu não te perdoo por ter saido da minha vida, por ter recomeçado, por ter deixado todas as cartas pra trás, todas as ilusões que construimos juntos e por ter me deixado nesse mundo sozinha e desamparada. Eu não te perdoei por ter me feito viver sem teus olhos verdes, por tu ter mudado tanto e por hoje nem eu te reconhecer mais. Eu não te perdoei por ter construido uma terra de fantasias comigo e ter me deixado lá sozinha, sonhando acordada com o futuro que a gente nunca vai ter.

Eu não te perdoei por ter abusado de mim. Por ter pensado só em ti durante todo esse tempo, por ter me moldado a tua vontade sem nem me perguntar, por ter se forçado em mim, em todos os sentidos. Por ter me feito construir a tua vida enquanto eu cuidava de ti, e esquecia de mim. Eu nunca te perdoei por ter me deixado acreditar que nossa relação era sobre nós, quando na verdade ela sempre foi sobre você.

Eu não te perdoei por não ter me dado atenção quando eu precisei, quando eu estava indefesa e quando a minha inocência cobria meu corpo pequeno e frágil. Você me fez amadurecer antes do tempo, você me deixou sozinha quando eu não sabia andar com as minhas pernas, aos cuidados de estranhos que nem você confiava. Eu não te perdoei por ter me feito adulta sem ter tido uma infância.

Eu não te perdoei por ter parado de me dar carinho quando eu comecei a ter opiniões, e eu não te perdoei por ter me feito viver em uma casa contigo como se fosse um estranho. Eu não te perdoei por ter ido embora.

Eu não me perdoo por viver a minha vida pelos outros, sempre no meio da relação alheia, sendo obrigada a ouvir vocês falando com vozes infantis na minha frente enquanto eu não estou nem aqui. Eu não me perdoo por não ser autosuficiente, por não ser independente, por não decidir se eu quero ser livre ou se eu quero estar confortável no sofá sentada do lado de alguém que na verdade nunca vai me dar o que eu quero. Eu não me perdoo por não saber diferenciar, por não saber ver por trás da lábia e por trás das más intenções, porquê na verdade eu só estou atrás de um pouco de atenção.

Eu não me perdoo por não ser forte, por não ser feliz sozinha, e por precisar tanto de um colo que não existe. Eu não me perdoo por sair da vida das pessoas sempre que eu me sinto desconfortável, e eu não me perdoo por não deixar as pessoas saberem que eu estou desconfortável quando na verdade eu sei que eu estou sendo invadida, mutilada, sem nem deixar de sorrir.

Mas o sol nasce todo dia, e todo dia é uma nova oportunidade de perdoar.