sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Lembra

 Eu lembro de mim.

Eu lembro do quanto eu gosto do cheiro de leite fervido, e que é aquele cheiro que eu demoro a sentir pela carga emocional que ele traz. Eu lembro que eu não lido bem com o fluxo de emoções, pois eu não sei estar fora do meu ponto de equilibrio. 

Eu estou sempre buscando o equilibrio, quando tudo lá fora está sendo levado pelo vento. Eu lembro do meu silêncio.

Eu lembro das musicas que eu ouvia, e o que eu sentia quando elas tocavam, e como eu consigo evocar os mesmos sentimentos mesmo anos depois. Eu lembro da sensação agridoce que o sofrimento tem, que é ao mesmo tempo sufocante mas cômodo. Grandioso. 

Eu lembro de mim, de sentir desconfortável com a minha nudez, e procurar apenas defeitos no espelho. Eu conheço a pessoa atrás de toda essa insegurança, e eu sei quem ela é. Eu me deixei em cada canto, eu me espalhei em cada espelho de cada casa, e eu não juntei meus pedaços ainda. Eu deixei a água me quebrar nas pedras e eu me senti confortável assim.

Eu lembro de mim, de ver os mesmos filmes por ter medo e impaciência com o novo. Eu conheço bem a arrogância que habita em cada filme que eu vejo, na tentativa de ser culta e interessante.

Eu lembro da minha intensidade, do meu desejo obsessivo de ter alguém do meu lado, para então esquecer de mim. Eu lembro do outro, todos os dias, e esqueço de mim. Eu lembro de ter me deixado em sorrisos, de ter me esquecido em olhos que não me viam.

Eu lembro de mim. Eu lembro do quanto eu me esqueci.

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