quarta-feira, 21 de julho de 2021

 finalmente eu tive coragem de sentar e escrever sobre ti

não porquê não dói mais

mas porquê eu entendi

das faltas que eu sinto a tua é uma das que mais machuca, e isso prova pra mim que as minhas maiores carências não são de afetividades românticas, e sim de compreensão. de liberdade.

tu bem sabes que eu não me abro com todos, pois eu carrego comigo muito, e muitos não concordariam, e tu bem sabes também como eu odeio conflito e divergências... na maioria das conversas eu apenas mostro o que o outro quer ver e não me comprometo.

mas isso não me completa, nem de longe. entretanto tu não me completava, tu transbordava. me expulsava do meu copo, me deixando num conforto descondortável, onde eu sabia que estava sendo invadida mas gostava da invasão.

pois contigo eu não precisava agir muito, tu agia por nós, e em troca eu só precisava sofrer um pouquinho.

era uma simbiose, uma relação de dependência emocional onde sem você eu me sentia sem ar, mas contigo tu não me deixava respirar.

eu te machuquei também, e eu sinto muito.

eu sou como o gato que tu cuida e quando ele se sente acuado ele morde e se esconde, e tu nem sabe em que parte tu tocou que o fez agir assim.

eu acredito que tu mesma não saiba o que tu fez para que eu agisse daquela maneira, e a verdade é que foi um acumulado de um ano de tormenta, que explodiram em um momento extremamente inapropriado.

eu sinto muitíssimo.

e é estranho porquê apesar de eu sentir tua falta, eu não desejo mais nossa amizade.

mas eu queria conseguir olhar pra ti sem me sentir ferida... acho que quanto maior o amor mais dolorida a queda.

eu queria ficar feliz com teus passos, mesmo observando eles de longe

queria poder sorrir com as tuas conquistas

mas eu ainda estou ferida

então eu sinto muito, por não estar neutra

por não desejar o teu melhor

mas eu espero que desejar sentir isso conte, e que um dia isso passe

segunda-feira, 5 de julho de 2021

convulsão

 De todas as coisas que ela deixou para trás, e em todos esses anos, poucas coisas fizeram tanta falta como o cheiro agridoce do pescoço que ela deitava a cabeça enquanto contemplava a paisagem a sua frente. Seu frágil corpo não conseguiu sustentar a falta que o toque aveludado produzia, e em todo esse tempo ela apenas deixou de lado os sentimentos como se fossem caixas de mudanças. Foi complicado olhar para o amontoado que se formou naquele quarto que ninguém entra, mas ela tentou. Olhou a primeira caixa e viu um par de olhos verdes. Não, não quis olhar o que tinha nas outras. Em outras caixas tinham cristais, árvores, roupinhas de cachorro, itens medievais e todo tipo de quinquilharia que ela juntou pelos anos. Havia uma caixa com dinheiro antigo que nem dela era, mas guardava pois aquele dinheiro podia servir para alguma emergência. Havia tantas coisas naquele quarto que ela mal conseguia processar tudo, mas começou, caixa por caixa, apesar da melancolia que a primeira caixa deixou impregnada no ar. Ela precisava mexer nisso para que pudesse parar de empilhar caixas com as mesmas bugigangas. Para que de uma vez por todas parasse de comprar itens de segunda mão que só trazem as mesmas experiências. Por favor, vamos tirar essas caixas do caminho para que o novo venha.

De todas as coisas que os anos deixaram para trás nesse exato momento ela só sente falta da cumplicidade. Do carinho que ela deixou naquele outubro chuvoso, da pele branca como a neve que trazia toda uma história mórbida que ela não quis deixar para trás. Ora pois, tantos anos escrevendo sobre a brancura cor-de-osso da lua, uma hora ela teria que enfrentar o fantasma. Ler o bilhete. Mexer na poeira. Abrir a porta. Uma hora seria necessário desempacotar tanto sentimento que ela guardou para depois. Depois de tanto tempo, parece que nesse quarto só existe saudade. Uma coleção invejável de experiências passadas as quais ela não aproveitou direito enquanto passavam. Lembra de algum dia ter gostado dos pingos de ouro que escondiam o abraço quente nas manhãs de inverno? Não, enquanto ela enfrentava o frio do passado ela apenas almejava o futuro. Pois então menina, o futuro chegou... passou... e hoje se amontoa junto com o par de olhos verdes nas caixas empilhadas. Ora menina, quando tu vai parar para aproveitar as paredes cor de creme que tu tens hoje?

A noite chega, com ela novos pares de olhos aos quais tu nem quer ver. Novos amontoados de experiências passadas que tu já sabe que não valem a pena. Mas lá vai você.

Já passou a hora de mexer nas caixas. Já passou a hora de deixar a saudade ir embora. Já passou a hora de começar a aproveitar o caminho e não mais desejar a parada final.

Eu sei como termina, mas me deixe entender como começa. Onde eu deixo as possibilidades para trás e começo a entender a grande queda que se apresenta a frente. O cenário é simples, deixa-me descrever: as suas costas há um verde intenso, uma grama que não precisa ser cortada e um céu enorme que abriga praticamente tudo que existe. 

Ao olhar para cima é possível ver como as nuvens brincam, mas a frente não há nada. Vazio.

Eu não sei como termina, tampouco sei como começa. Mas deixa-me te dizer: eu estou com medo.

domingo, 4 de julho de 2021

saudade

Você deixou aquela música na minha playlist, e agora não tem como saber se foi uma despedida ou não. Eu sei, faz tempo. Mas eu ainda te procuro em outros corpos. Nesses últimos dias eu tenho sentido tua falta como nunca antes, e a minha memória já fantasia abusos que eu sei que machucaram. 

Eu te disse que todas as coisas da vida seriam passageiras, menos tu. E até agora eu não menti. Tudo passou, tudo mudou. Meu chão se abriu diversas vezes e eu venci cada uma, sozinha. Sem teu abraço eu me sinto forte, eu pude enfrentar tudo. Mas sem teu abraço eu me sinto sozinha, fria. Sem teu casaco eu sinto o frio cortar minha pele. Eu te vejo feliz, eu te vejo outra pessoa, e olhando as fotos eu sei que a pessoa que tu é não é mais quem eu amei. Mas olhando as fotos eu vejo como tu me fez feliz. Como tudo era simples contigo, nossos dias eram cheios e eu sinto tanto não ter aproveitado a liberdade que tenho hoje contigo.

Certa vez tu me disse que os dias podiam passar, mas nosso amor seria eterno. Eu não menti, e ainda é amor, por mais que nem eu nem você lembremos mais.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Retrato

 Seu sonho sempre foi tirar aquelas fotos no meio de um campo de trigo. A verdade é que o trigo é cortante, mas o trabalho de chegar no local perfeito com certeza valeria a pena se ela conseguisse colocar aquele momento em um quadro. Estático. Congelado.
Ela queria deitar naquele lugar, seria bom se tivesse uma árvore perto para lhe fazer sombra. Deitada de barriga para cima ela veria o céu em um azul claro inacreditável, que toca o verde amarelado da plantação que a cobre, e lentamente ela vai sendo engolida pela terra. Se sentindo um pontinho único em um mundo com 7 bilhões de pessoas errantes, as quais ela não consegue lembrar de nenhuma agora. Se sentindo apenas uma em um mundo vazio.
Ela olha para o céu por entre as árvores e pensa em quantas vezes ela desejou poder estar no topo dos galhos, tocando o céu.
A solidão é um sentimento ao qual é possível se acostumar. Para quem carrega a solitude no peito o mundo tem cores diferentes.
A composição melancólica é guardada em um quadro, pois a memória por vezes erra. As vezes a lembrança falha em dizer que ela nem sempre esteve só.