segunda-feira, 5 de julho de 2021

convulsão

 De todas as coisas que ela deixou para trás, e em todos esses anos, poucas coisas fizeram tanta falta como o cheiro agridoce do pescoço que ela deitava a cabeça enquanto contemplava a paisagem a sua frente. Seu frágil corpo não conseguiu sustentar a falta que o toque aveludado produzia, e em todo esse tempo ela apenas deixou de lado os sentimentos como se fossem caixas de mudanças. Foi complicado olhar para o amontoado que se formou naquele quarto que ninguém entra, mas ela tentou. Olhou a primeira caixa e viu um par de olhos verdes. Não, não quis olhar o que tinha nas outras. Em outras caixas tinham cristais, árvores, roupinhas de cachorro, itens medievais e todo tipo de quinquilharia que ela juntou pelos anos. Havia uma caixa com dinheiro antigo que nem dela era, mas guardava pois aquele dinheiro podia servir para alguma emergência. Havia tantas coisas naquele quarto que ela mal conseguia processar tudo, mas começou, caixa por caixa, apesar da melancolia que a primeira caixa deixou impregnada no ar. Ela precisava mexer nisso para que pudesse parar de empilhar caixas com as mesmas bugigangas. Para que de uma vez por todas parasse de comprar itens de segunda mão que só trazem as mesmas experiências. Por favor, vamos tirar essas caixas do caminho para que o novo venha.

De todas as coisas que os anos deixaram para trás nesse exato momento ela só sente falta da cumplicidade. Do carinho que ela deixou naquele outubro chuvoso, da pele branca como a neve que trazia toda uma história mórbida que ela não quis deixar para trás. Ora pois, tantos anos escrevendo sobre a brancura cor-de-osso da lua, uma hora ela teria que enfrentar o fantasma. Ler o bilhete. Mexer na poeira. Abrir a porta. Uma hora seria necessário desempacotar tanto sentimento que ela guardou para depois. Depois de tanto tempo, parece que nesse quarto só existe saudade. Uma coleção invejável de experiências passadas as quais ela não aproveitou direito enquanto passavam. Lembra de algum dia ter gostado dos pingos de ouro que escondiam o abraço quente nas manhãs de inverno? Não, enquanto ela enfrentava o frio do passado ela apenas almejava o futuro. Pois então menina, o futuro chegou... passou... e hoje se amontoa junto com o par de olhos verdes nas caixas empilhadas. Ora menina, quando tu vai parar para aproveitar as paredes cor de creme que tu tens hoje?

A noite chega, com ela novos pares de olhos aos quais tu nem quer ver. Novos amontoados de experiências passadas que tu já sabe que não valem a pena. Mas lá vai você.

Já passou a hora de mexer nas caixas. Já passou a hora de deixar a saudade ir embora. Já passou a hora de começar a aproveitar o caminho e não mais desejar a parada final.

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