quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

O sentimento encaixotado

O sentimento guardado por anos em uma caixa, é finalmente convidado a sair. Ele olha pela janela, decidindo se é sábio por os dedos para fora. Ele fica receoso no início, afinal já não tinha mais conexão, já não sabia mais interagir. O problema na verdade, é que após saber que existe o mundo lá fora, o sentimento não quer mais voltar para a confortável caixa que o mantinha seguro dos espinhos de fora. Sabendo que existem cores, cheiros, texturas e tatos que nunca viu, agora o sentimento quer experimentar tudo de uma vez, indo em um fluxo obsessivo em direção a qualquer coisa que seja prazeroso. Esse é o problema do sentimento guardado, ele quer sentir, ele quer sair.
O problema dela é o medo, que ao contrário do sentimento encaixotado, sempre esteve presente. Ela tem medo do desconhecido, medo da sua intensidade e medo de não ser correspondida. O problema dela é que ela sente demais.
O sentimento pôs os dedos para fora e sentiu um novo mundo, sentiu a água no ar, e quis voar pela frestas, deixando-se ir com o vento, querendo estar nos quatro cantos, conhecendo cada caminho, cada pedaço. O sentimento pulava do peito, fazia a garganta fechar, os olhos marejar e o calafrio tocar a pele. Fazia o ar comprimir e a vida pulsar. Ela gostava da sensação, mas tinha medo. Ela gostava do sentimento, mas o colocou de volta na caixa, onde ele estaria seguro, amenizado, dormente. O sentimento não pertence a caixa, ela pertence ao mundo. Ela pertence em cada canto, como o vento. Ela pertence no sentimento.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Ela não veio para uma vida pacata. Não veio para ter uma casa decorada com porcelanas caras e mantas no sofá. Ela veio para sentir o vento no rosto, descobrir novas árvores, sentir cheiros doces e amargos, e principalmente para deixar o coração voar.

Ela clamou diversas vezes que a caneta havia a abandonado, disse algumas vezes que ninguém lia o que ela escrevia, e que suas palavras não faziam mais sentido. Ela procurou sentido em todas as suas palavras, sabendo que elas nunca teriam. A verdade é que a caneta nunca a abandonou, sempre esteve no mesmo lugar, ela que nunca procurava. Ela não precisava que alguém lesse suas palavras, ela precisava que suas palavras exprimissem aquilo que seu coração confuso queria contar.

A vida não é sobre um apartamento pago e um chão encerado. A vida não é sobre rotina e códigos limpos. A vida é sobre lugares e vontades, e ela nunca disse qual era realmente seu lugar.
Seu lugar é o mundo, seu lugar é em cada canto, em cada árvore. Seu lugar é onde o vento a leva.

O coração pulsa, o corpo sente o vento e estremece, sabendo que logo sua vida vai mudar. Será que ela tem coragem?

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

A depressão é silenciosa, e nem sempre tem motivo. Fazem 5 anos que eu não volto aqui, e eu me arrependo disso.

A mente adolescente que um dia foi capaz de traduzir em frases o que o coração explodia hoje tem 24 anos, e não sabe dizer o que ainda é adolescente e o que é adulto dentro de si. A existência humana é repleta de problemas, e eu sempre soube disso. A agonia de ser humano é intensa, é como o oceano, vêm e quebra em ondas fortes e decididas, para então se retrair e trazer o que há na margem para dentro de si.

Minha mente sempre foi intensa, meus sentimentos sempre foram torrenciais e meu coração sempre sofreu com a minha falta de habilidade em lidar com tudo isso, com toda essa intensidade que sou eu. Minha mente lida com isso escrevendo, e eu sempre fui boa nisso, olhando para trás eu vejo isso. A normalidade do dia a dia ameniza a mente difusa, bloqueia a criatividade e entorpece o corpo. A maior inimiga do escritor. É tempo de deixar os sentimentos fluirem novamente, pois reprimidos aqui dentro eles dão espaço para a depressão silenciosa. Minha depressão é fazer meus sentimentos caberem em qualquer espaço, para ser "feliz". E ser feliz é reprimir tudo aquilo que ta aqui? É deixar a vida passar sem propósito, apenas cumprindo tabela e vivendo de forma monótona?

Sempre chamei meu diário de fantasma, pois sabia que só eu via ele, e que de alguma forma todas essas palavras me atormentavam, como um fantasma apegado a uma casa mal assombrada. Deixamos os termos de lado por enquanto, mesmo sabendo que a casa mal assombrada sou eu.

"I promisse to myself, for me and no one else. I am more than this. I am the fire."

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Bem vinda ao meu pesadelo

Acorde em uma caldeira gigante, e você saberá pelo que ela passou. Acordou sentindo seus pés no metal frio, e as mãos cobriam os olhos para não ver. O cheiro é de enxofre, e de carne queimada. Ouvem-se gritos ao longe, e os gritos entram pelos ouvidos como agulhas finas e que encontram a carne e produzem a mais aguda das dores. Ela continua repetindo para si mesma “é apenas um sonho, eu ainda não acordei”, mas ela mesmo sabe que está mentindo. O cheiro é real demais, os gritos são reais, e seus pés gelados também. Suas pequenas mãos estão coladas no seu rosto, impedindo o horror externo de inundar seus olhos. Não sabe como foi parar ali, não sabe o que está acontecendo, mas sabe que o ar pesa em seus ombros, e o terror é tangível. Estenda a mão, e você conseguirá tocar na sua própria agonia.
Ela abre uma fenda em seus dedos para ver aonde está, apesar de já saber antes mesmo de ver. Está na velha caldeira abandonada, e então suas mãos deixam seu rosto para ver que há uma distância perigosa entre o chão da caldeira e seus pés. Sabe que precisa correr, mas não sabe para onde. Olha para cima e vê o teto enferrujado, olhando para ela com puro desdém. Olha para baixo e vê a altura nada acolhedora, e as maquinas funcionando a plenos pulmões. O lugar parece estar vivo e espreitando, esperando um momento de distração para atacar. Olha para os lados e vê sangue escorrendo das paredes, mas não sente o cheiro salgado e metálico que é característico do líquido vermelho, sente o cheiro podre de carne encontrando o fogo. Sua cabeça procura uma explicação plausível, mas não consegue encontrar, e seus olhos paralisam de puro terror.
Ela está na parte de cima da caldeira, onde é possível ver os tonéis enormes com algum líquido duvidoso borbulhando la embaixo. O vapor que sobe beija seu rosto deixando um ar putrefato em suas narinas. Ela anda devagar, se apoiando no corrimão pois sabe que a queda não é gentil. Encontra um corredor que leva a salas de manutenção das caldeiras, e então vem o alívio por não estar mais a mercê da perigosa altura que a separava do chão. Ao longe os gritos sedem aos poucos e ela consegue ver a escada que leva ao andar de baixo. Se conseguir descer estará perto da porta que leva a saída. Anda com toda a calma, na ponta dos pés. Não sabe se tem alguém na caldeira, mas prefere não saber. Anda com os olhos espertos cuidando cada canto. A cada passo seu sangue gela um pouco e as mãos tremem. Os olhos arregalados não piscam e a agonia sufoca a garganta.
Quando a escada se aproxima e quando o suspiro de alívio começa a surgir, um barulho metálico começa aos poucos até se tornar ensurdecedor, parecendo vir de dentro de sua cabeça. Um barulho de metal arrastando metal, de garras de aço passando carinhosamente pelo corrimão da ponte suspensa aonde estava a poucos minutos. Tem medo de se virar pois sabe muito bem quem irá encontrar.
“Então criança, achou que viria me visitar e eu não a convidaria para um chá? Você sabe que eu vou te pegar” O sorriso irônico estava implícito em cada palavra. Virou-se rapidamente para ver apenas a ponte suspensa e as caldeiras abaixo. O gelado da garra retira o cabelo comprido dos ombros, e então ele diz “Bem vinda ao meu pesadelo”. Começa a correr desesperadamente, mas sabe que é inútil. Os gritos deixam sua garganta sem aviso e sem controle, o suor escorre pela testa e os olhos embaçam até sentir seu rosto sendo lavado em lágrimas. Corre para onde há chão para correr, e grita como se seus gritos o espantassem.
Então seus pés paralisam e de uma entrada ao lado ele surge, deixando a luva com as garras saírem antes do corpo. Seu sorriso irônico e genuíno é horripilante, sua face deformada, enrugada e completamente queimada a faz arregalar os olhos. Sua roupa chamuscada, seu chapéu preto e velho e aquela luva com garras não deixam dúvida de quem está a sua frente. Seus olhos lentamente seguem os pés gelados da menina, sobem para as pernas trêmulas, acompanham os punhos cerrado e sobem devagar para fitar seu rosto. E então ele murmura “Ora criança, não precisa fugir, eu não vou te machucar”. Ele olha no fundo dos olhos dela e ela sente a agonia, o terror, o medo e todas as emoções ruins que já sentiu misturadas em um bolo que se forma em sua garganta e explode pelos seus olhos. Ele avança e ela grita com todo o ar que existe no seu corpo. Ele avança com os braços abertos, seus braços ficam mais compridos a cada passo que os aproximam, ele avança com os olhos transbordando seu sadismo, e o sorriso...
Ela acorda ensopada, gritando. Sua mãe está ao seu lado a sacudindo. Em sua barriga há cortes que formam a seguinte frase:
Freddy está atrás de você.