terça-feira, 17 de agosto de 2021

volte ao início

a dualidade entre sentir a solidão e saber que não está sozinha
é óbvio que existem pessoas, sempre existiram
sempre há pessoas em todos os lugares
há aquelas pessoas que juram pra ti que tu não está sozinha
mas eventualmente o abraço delas não está ali para acalmar o peito que salta para fora da pele
existem aquelas que continuam ali, mas não querem só fornecer um abraço... querem perna, braço, tudo que tu pode - e não pode - oferecer
existe aquelas que continuam ali, mas não compreendem o teu sentimento, não fornecem apenas um abraço, fornecem um discurso junto - ou de como teu sentimento ta errado, ou de como sair dele, ou de como tu é foda e esse sentimento é tão pequeno perto do que tu é
mas a verdade é que eu sou sentimento, dizer que algum deles é pequeno demais é diminuir a mim
e a verdade é que sou sentimento, dizer que ele está errado é duvidar de mim
se duvida de mim, por que quer me abraçar?
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e como cobrar das pessoas exatamente o que eu quero? sendo que eu sou uma pessoa, com vivências e experiências... as pessoas são outras, com outros sentimentos, vivências e experiências
não posso cobrar
mas sinto
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eu sempre senti essa solidão
sempre houveram pessoas que juraram que nunca me deixariam e me deixaram
sempre houveram pessoas que prometeram me abraçar, mas julgaram meu sentimento, então o abraço só vem após escutar qualquer coisa que eu não quero ouvir
não me abrace então
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no meu mantra diz: "não me envolvo", e nessa vida, eu vivo buscando um lugar onde eu possa me apegar em segurança, um porto seguro para ser abraçada e deixar ali a minha solidão - para todo o sempre
sem saber que esse lugar sou eu
mas isso é solitário
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pessoas vieram, pessoas foram
deixei minha solidão em alguns abraços
outros abraços trouxeram ela de volta
e a dualidade que existe em saber que não estou sozinha, mas me sentir só, mas não poder cobrar que outra pessoa me forneça o abraço que eu quero, saber que esse abraço é meu, mas me sentir só por ter que me sustentar em todos os momentos da minha existência
abraços que moram longe demais
abraços que se foram
abraços que não querem a mim
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e no fundo eu me sinto uma criança mimada, que só quer ter pra onde correr, sendo que honestamente, eu nunca tive
cresce Gabriela, deixa de ser a criança mimada que se sentia só
mas eu sinto, não quero reprimir
pois procure alguém
eu cansei
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não se faça de vítima, pra quê todo esse discurso infantil? - mas eu sinto
aceite o discurso que vem antes do abraço - mas ele me agride, vou me sentir agredida e só?
mas como tu quer ser independente e não se sentir só? - mas eu sinto, devo reprimir?
e no fim, eu sigo só

A velha casa dos pais

 Seu nome pouco importa, mas eu quero deixar aqui registrada sua história.

Era uma menina de classe média, que quando criança morava em uma casa no interior. A casa não era lá essas coisas, mas tinha tudo que precisava ter, e seus pais providenciavam tudo que a casa precisava para manter todos os seus integrantes felizes e saudáveis. Era uma casa de madeira, com uma pintura que lembrava casas rústicas, mas a sua mãe tinha uma maneira peculiar de decorar o local. Para a menina, de uma certa forma era brega, mas era tão sua casa, que se fosse diferente não seria aconchegante.

Havia uma variedade de estilos, e era possível ver que essa variedade se dava pelo momento que a moda seguia quando tal decoração foi comprada. Como seus pais não conseguiam comprar as coisas para a casa de uma vez só, era possível ver uma linha do tempo ao andar pela casa. O sofá era de uma época onde os marrons estavam na moda, a estante da TV já era mais moderna, com madeiras expostas e lugar para a TV ser pendurada na parde. 

A cozinha era alegre, com decorações típicas: potes com folhas verdes pendendo de um armário alto que ninguém naquela casa alcança - como as plantas sobreviviam? - muitas portas que dentro guardam uma desorganização sem precedentes, juntamente com aquela lata de leite condensado escondido bem no fundo, para que caso alguma visita chegasse (e era essa a desculpa que a mãe usava para comprar tal lata) ela tivesse como preparar algum doce.

A sua vida passou por aquela casa de diversas formas, quando criança brincava sozinha na varanda, com uma boneca bem feia, mas tinha um nome de uma companhia bem agradável. Ela nunca fora de muitos amigos. Na adolescência a varanda foi cruelmente substituída pelo seu quarto, onde ela aprendeu a passar seus dias. Não por ter sido expulsa dos outros cômodos, mas porquê no silêncio do seu quarto havia uma janela que era parcialmente bloqueada por uma árvore de pitanga, onde ela se sentava para ver o céu. Ocasionalmente era possível ver a lua a noite, e olhando para a lua ela sonhava com o dia que teria uma casa inteira para si.

Naquela casa haviam fotografias, que mostravam pessoas que ela nem conhecia... Alguns rostos só era possível ver por fotografia mesmo, e foi assim, que criança mesmo, ela aprendeu que é melhor guardar os momentos bonitos em um papel, pois o tempo passa. Algumas fotografias estavam penduradas pelas paredes, mostrando que aquela casa - além da decoração ímpar - tinha uma leve fascinação pelo passado. Eventualmente as fotografias mostravam novos rostos, eventualmente a decoração ia mudando, de acordo com a moda atual (que logo virava moda do passado... e assim por diante).

Um dia ela finalmente concretizou seu sonho: conseguiu uma casinha para si. Ela julgava ter um gosto para decorações muito mais apurado que o da mãe, mas convenhamos, o que não é brega para mim pode ser brega para você. Então quem sabe, seu estilo seja apenas diferente. Na sua nova casa, ela não deixou um espacinho para a saudade, apesar de ela ter vindo junto mesmo assim. Engraçado, que não é da casa exatamente que ela sente falta, sabe?

Ela sente falta daquilo que apenas a fotografia tem: um momento que era exatamente daquele jeitinho. Pessoas que eram exatamente daquele jeitinho. Ela sente falta especificamente de pessoas que mudaram tanto, que já são outras. E essa é a parte mais cruel do tempo. Pois naquele momento exato houve uma conexão e uma cumplicidade que deixaram uma marca enorme. Deixaram um aprendizado, ou um amor, e com certeza um carinho. Mas essas pessoas não existem mais. Seu corpo habita outros seres, desconhecidos, incapazes de fornecer aquele momento novamente.

Olhar para aquela casa hoje é como olhar para um amontoado de lembranças, e acredito eu, que ocasionalmente a casa dos pais acaba sendo isso mesmo, um amontoado de lembranças de outrora. Ela via esse mesmo sentimento no olhar marejado do pai, quando via o esqueleto vazio da casa que em outros tempos abrigava sua avó. E ela reconhecia o sentimento, mas ainda distante... A casa da vó era um lugar de férias, não tinha histórias do dia a dia para ela, então obviamente não tinha como entender o porquê dos olhos do pai marejarem. 

Quem sabe ao olhar, ele via num canto uma época onde brincava com a irmã, naquele outro canto uma briga com seu irmão, no outro ele recebeu um conselho de seu pai, na cozinha sua mãe cozinhava o almoço numa manhã de domingo, na varanda seus primos que vieram de cavalo convidar para jogar bola... e hoje ela vê isso. 

Durante toda sua vida houveram tantas mortes, tantos momentos que morreram para deixar outros virem, sabe? Infelizmente as fotografias não conseguem aplacar isso. A fotografia não tem cheiro, voz, não ama. E por mais que tenham pessoas novas em sua vida, as antigas fazem falta. Outro dia ela olhava um seriado tosco, mas o episódio era sobre um amigo que fazia de tudo para salvar o outro, que no final, não retribuiu o carinho que seu salvador teve. Aquilo doeu tanto. Pois ela entendeu que em muitas das suas relações ela amou sozinha.

E como pode isso ser um problema do outro? Quando ele não tem obrigação nenhuma de te amar. Ele não tem obrigação de retribuir o carinho. Mas da mesma forma, conter o fluxo das emoções que tu estás sentindo também é uma violência consigo. Então, ela caiu no conto do amor que ama sozinho. Fadado a solidão, e a tragédia do Romeu que ao acordar viu que seu amor não se encontrava mais ali. Sua vida muitas vezes foi essa tragédia Shakespeariana, ao acordar do devaneio se via na sala sozinha, olhando para sua Julieta morta ao seu lado, sem nada poder fazer para trazer a amada de volta.

A velha casa dos pais é uma tragédia Shakespeariana se tu parar para pensar, um eterno Romeu olhando para a Julieta deitada sem vida, mas também é um sonho de uma noite de verão... encontros e desencontros, e eventuais finais felizes. Mas com o passar do tempo a menina entendeu que apesar da nostalgia e da falta que ela sente dos momentos olhando para a lua na janela, ela entendeu que enquanto ela vivia tais momentos, sua mente estava em um futuro que hoje ela tem. A mente nunca está na casa que está - ou está com 15 anos sentada em uma janela, ou com 26 sentada em um sofá confortável. Construir na sua própria casa um sonho de uma noite de verão quem sabe seja mais fácil hoje, entendendo que a magia da casa dos pais continua lá, e a magia de estar aqui, é também uma forma de viver em um conto.

O que é estar sozinha? E como esse texto é meu, e não da menina, eu não terminarei ele de uma forma bela e poética. 

quarta-feira, 21 de julho de 2021

 finalmente eu tive coragem de sentar e escrever sobre ti

não porquê não dói mais

mas porquê eu entendi

das faltas que eu sinto a tua é uma das que mais machuca, e isso prova pra mim que as minhas maiores carências não são de afetividades românticas, e sim de compreensão. de liberdade.

tu bem sabes que eu não me abro com todos, pois eu carrego comigo muito, e muitos não concordariam, e tu bem sabes também como eu odeio conflito e divergências... na maioria das conversas eu apenas mostro o que o outro quer ver e não me comprometo.

mas isso não me completa, nem de longe. entretanto tu não me completava, tu transbordava. me expulsava do meu copo, me deixando num conforto descondortável, onde eu sabia que estava sendo invadida mas gostava da invasão.

pois contigo eu não precisava agir muito, tu agia por nós, e em troca eu só precisava sofrer um pouquinho.

era uma simbiose, uma relação de dependência emocional onde sem você eu me sentia sem ar, mas contigo tu não me deixava respirar.

eu te machuquei também, e eu sinto muito.

eu sou como o gato que tu cuida e quando ele se sente acuado ele morde e se esconde, e tu nem sabe em que parte tu tocou que o fez agir assim.

eu acredito que tu mesma não saiba o que tu fez para que eu agisse daquela maneira, e a verdade é que foi um acumulado de um ano de tormenta, que explodiram em um momento extremamente inapropriado.

eu sinto muitíssimo.

e é estranho porquê apesar de eu sentir tua falta, eu não desejo mais nossa amizade.

mas eu queria conseguir olhar pra ti sem me sentir ferida... acho que quanto maior o amor mais dolorida a queda.

eu queria ficar feliz com teus passos, mesmo observando eles de longe

queria poder sorrir com as tuas conquistas

mas eu ainda estou ferida

então eu sinto muito, por não estar neutra

por não desejar o teu melhor

mas eu espero que desejar sentir isso conte, e que um dia isso passe

segunda-feira, 5 de julho de 2021

convulsão

 De todas as coisas que ela deixou para trás, e em todos esses anos, poucas coisas fizeram tanta falta como o cheiro agridoce do pescoço que ela deitava a cabeça enquanto contemplava a paisagem a sua frente. Seu frágil corpo não conseguiu sustentar a falta que o toque aveludado produzia, e em todo esse tempo ela apenas deixou de lado os sentimentos como se fossem caixas de mudanças. Foi complicado olhar para o amontoado que se formou naquele quarto que ninguém entra, mas ela tentou. Olhou a primeira caixa e viu um par de olhos verdes. Não, não quis olhar o que tinha nas outras. Em outras caixas tinham cristais, árvores, roupinhas de cachorro, itens medievais e todo tipo de quinquilharia que ela juntou pelos anos. Havia uma caixa com dinheiro antigo que nem dela era, mas guardava pois aquele dinheiro podia servir para alguma emergência. Havia tantas coisas naquele quarto que ela mal conseguia processar tudo, mas começou, caixa por caixa, apesar da melancolia que a primeira caixa deixou impregnada no ar. Ela precisava mexer nisso para que pudesse parar de empilhar caixas com as mesmas bugigangas. Para que de uma vez por todas parasse de comprar itens de segunda mão que só trazem as mesmas experiências. Por favor, vamos tirar essas caixas do caminho para que o novo venha.

De todas as coisas que os anos deixaram para trás nesse exato momento ela só sente falta da cumplicidade. Do carinho que ela deixou naquele outubro chuvoso, da pele branca como a neve que trazia toda uma história mórbida que ela não quis deixar para trás. Ora pois, tantos anos escrevendo sobre a brancura cor-de-osso da lua, uma hora ela teria que enfrentar o fantasma. Ler o bilhete. Mexer na poeira. Abrir a porta. Uma hora seria necessário desempacotar tanto sentimento que ela guardou para depois. Depois de tanto tempo, parece que nesse quarto só existe saudade. Uma coleção invejável de experiências passadas as quais ela não aproveitou direito enquanto passavam. Lembra de algum dia ter gostado dos pingos de ouro que escondiam o abraço quente nas manhãs de inverno? Não, enquanto ela enfrentava o frio do passado ela apenas almejava o futuro. Pois então menina, o futuro chegou... passou... e hoje se amontoa junto com o par de olhos verdes nas caixas empilhadas. Ora menina, quando tu vai parar para aproveitar as paredes cor de creme que tu tens hoje?

A noite chega, com ela novos pares de olhos aos quais tu nem quer ver. Novos amontoados de experiências passadas que tu já sabe que não valem a pena. Mas lá vai você.

Já passou a hora de mexer nas caixas. Já passou a hora de deixar a saudade ir embora. Já passou a hora de começar a aproveitar o caminho e não mais desejar a parada final.

Eu sei como termina, mas me deixe entender como começa. Onde eu deixo as possibilidades para trás e começo a entender a grande queda que se apresenta a frente. O cenário é simples, deixa-me descrever: as suas costas há um verde intenso, uma grama que não precisa ser cortada e um céu enorme que abriga praticamente tudo que existe. 

Ao olhar para cima é possível ver como as nuvens brincam, mas a frente não há nada. Vazio.

Eu não sei como termina, tampouco sei como começa. Mas deixa-me te dizer: eu estou com medo.

domingo, 4 de julho de 2021

saudade

Você deixou aquela música na minha playlist, e agora não tem como saber se foi uma despedida ou não. Eu sei, faz tempo. Mas eu ainda te procuro em outros corpos. Nesses últimos dias eu tenho sentido tua falta como nunca antes, e a minha memória já fantasia abusos que eu sei que machucaram. 

Eu te disse que todas as coisas da vida seriam passageiras, menos tu. E até agora eu não menti. Tudo passou, tudo mudou. Meu chão se abriu diversas vezes e eu venci cada uma, sozinha. Sem teu abraço eu me sinto forte, eu pude enfrentar tudo. Mas sem teu abraço eu me sinto sozinha, fria. Sem teu casaco eu sinto o frio cortar minha pele. Eu te vejo feliz, eu te vejo outra pessoa, e olhando as fotos eu sei que a pessoa que tu é não é mais quem eu amei. Mas olhando as fotos eu vejo como tu me fez feliz. Como tudo era simples contigo, nossos dias eram cheios e eu sinto tanto não ter aproveitado a liberdade que tenho hoje contigo.

Certa vez tu me disse que os dias podiam passar, mas nosso amor seria eterno. Eu não menti, e ainda é amor, por mais que nem eu nem você lembremos mais.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Retrato

 Seu sonho sempre foi tirar aquelas fotos no meio de um campo de trigo. A verdade é que o trigo é cortante, mas o trabalho de chegar no local perfeito com certeza valeria a pena se ela conseguisse colocar aquele momento em um quadro. Estático. Congelado.
Ela queria deitar naquele lugar, seria bom se tivesse uma árvore perto para lhe fazer sombra. Deitada de barriga para cima ela veria o céu em um azul claro inacreditável, que toca o verde amarelado da plantação que a cobre, e lentamente ela vai sendo engolida pela terra. Se sentindo um pontinho único em um mundo com 7 bilhões de pessoas errantes, as quais ela não consegue lembrar de nenhuma agora. Se sentindo apenas uma em um mundo vazio.
Ela olha para o céu por entre as árvores e pensa em quantas vezes ela desejou poder estar no topo dos galhos, tocando o céu.
A solidão é um sentimento ao qual é possível se acostumar. Para quem carrega a solitude no peito o mundo tem cores diferentes.
A composição melancólica é guardada em um quadro, pois a memória por vezes erra. As vezes a lembrança falha em dizer que ela nem sempre esteve só.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

 Eu tenho a tua pele embaixo da minha unha, teu suspiro no meu ouvido. Tua boca vermelha e ofegante percorre os meus caminhos, e essa sensação única ecoa na minha pele, como se eu fosse um tamborim que tu toca delicadamente. Minha pele deseja, meu cabelo gruda. Enquanto a chuva toca lá fora, aqui dentro a dança é lenta. Teus olhos são como janelas para uma fantasia escondida, onde o tempo não passa. Teus olhos fixos em mim, enquanto tua mão viaja é como o ar que dança e me tira para dançar. Teu toque é vício, teu beijo é droga e eu sou qualquer coisa que tu queira.

Tua pele embaixo da minha unha, e os veios vermelhos que elas deixaram são uma história que eu queria viver todo dia. Tuas unhas curtas pressionando minhas pernas em ti contam uma história que eu não queria esquecer. 


Lembra

 Eu lembro de mim.

Eu lembro do quanto eu gosto do cheiro de leite fervido, e que é aquele cheiro que eu demoro a sentir pela carga emocional que ele traz. Eu lembro que eu não lido bem com o fluxo de emoções, pois eu não sei estar fora do meu ponto de equilibrio. 

Eu estou sempre buscando o equilibrio, quando tudo lá fora está sendo levado pelo vento. Eu lembro do meu silêncio.

Eu lembro das musicas que eu ouvia, e o que eu sentia quando elas tocavam, e como eu consigo evocar os mesmos sentimentos mesmo anos depois. Eu lembro da sensação agridoce que o sofrimento tem, que é ao mesmo tempo sufocante mas cômodo. Grandioso. 

Eu lembro de mim, de sentir desconfortável com a minha nudez, e procurar apenas defeitos no espelho. Eu conheço a pessoa atrás de toda essa insegurança, e eu sei quem ela é. Eu me deixei em cada canto, eu me espalhei em cada espelho de cada casa, e eu não juntei meus pedaços ainda. Eu deixei a água me quebrar nas pedras e eu me senti confortável assim.

Eu lembro de mim, de ver os mesmos filmes por ter medo e impaciência com o novo. Eu conheço bem a arrogância que habita em cada filme que eu vejo, na tentativa de ser culta e interessante.

Eu lembro da minha intensidade, do meu desejo obsessivo de ter alguém do meu lado, para então esquecer de mim. Eu lembro do outro, todos os dias, e esqueço de mim. Eu lembro de ter me deixado em sorrisos, de ter me esquecido em olhos que não me viam.

Eu lembro de mim. Eu lembro do quanto eu me esqueci.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Perdoa-me

 Eu não te perdoo por ter me esquecido. Eu não superei o fato de que nosso sentimento esfriou enquanto eu estava do teu lado fazendo de tudo para você me notar. Você me fez sentir insuficiente, você me fez sentir desinteressante.

Eu não te perdoo por ter saido da minha vida, por ter recomeçado, por ter deixado todas as cartas pra trás, todas as ilusões que construimos juntos e por ter me deixado nesse mundo sozinha e desamparada. Eu não te perdoei por ter me feito viver sem teus olhos verdes, por tu ter mudado tanto e por hoje nem eu te reconhecer mais. Eu não te perdoei por ter construido uma terra de fantasias comigo e ter me deixado lá sozinha, sonhando acordada com o futuro que a gente nunca vai ter.

Eu não te perdoei por ter abusado de mim. Por ter pensado só em ti durante todo esse tempo, por ter me moldado a tua vontade sem nem me perguntar, por ter se forçado em mim, em todos os sentidos. Por ter me feito construir a tua vida enquanto eu cuidava de ti, e esquecia de mim. Eu nunca te perdoei por ter me deixado acreditar que nossa relação era sobre nós, quando na verdade ela sempre foi sobre você.

Eu não te perdoei por não ter me dado atenção quando eu precisei, quando eu estava indefesa e quando a minha inocência cobria meu corpo pequeno e frágil. Você me fez amadurecer antes do tempo, você me deixou sozinha quando eu não sabia andar com as minhas pernas, aos cuidados de estranhos que nem você confiava. Eu não te perdoei por ter me feito adulta sem ter tido uma infância.

Eu não te perdoei por ter parado de me dar carinho quando eu comecei a ter opiniões, e eu não te perdoei por ter me feito viver em uma casa contigo como se fosse um estranho. Eu não te perdoei por ter ido embora.

Eu não me perdoo por viver a minha vida pelos outros, sempre no meio da relação alheia, sendo obrigada a ouvir vocês falando com vozes infantis na minha frente enquanto eu não estou nem aqui. Eu não me perdoo por não ser autosuficiente, por não ser independente, por não decidir se eu quero ser livre ou se eu quero estar confortável no sofá sentada do lado de alguém que na verdade nunca vai me dar o que eu quero. Eu não me perdoo por não saber diferenciar, por não saber ver por trás da lábia e por trás das más intenções, porquê na verdade eu só estou atrás de um pouco de atenção.

Eu não me perdoo por não ser forte, por não ser feliz sozinha, e por precisar tanto de um colo que não existe. Eu não me perdoo por sair da vida das pessoas sempre que eu me sinto desconfortável, e eu não me perdoo por não deixar as pessoas saberem que eu estou desconfortável quando na verdade eu sei que eu estou sendo invadida, mutilada, sem nem deixar de sorrir.

Mas o sol nasce todo dia, e todo dia é uma nova oportunidade de perdoar.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

O sentimento encaixotado

O sentimento guardado por anos em uma caixa, é finalmente convidado a sair. Ele olha pela janela, decidindo se é sábio por os dedos para fora. Ele fica receoso no início, afinal já não tinha mais conexão, já não sabia mais interagir. O problema na verdade, é que após saber que existe o mundo lá fora, o sentimento não quer mais voltar para a confortável caixa que o mantinha seguro dos espinhos de fora. Sabendo que existem cores, cheiros, texturas e tatos que nunca viu, agora o sentimento quer experimentar tudo de uma vez, indo em um fluxo obsessivo em direção a qualquer coisa que seja prazeroso. Esse é o problema do sentimento guardado, ele quer sentir, ele quer sair.
O problema dela é o medo, que ao contrário do sentimento encaixotado, sempre esteve presente. Ela tem medo do desconhecido, medo da sua intensidade e medo de não ser correspondida. O problema dela é que ela sente demais.
O sentimento pôs os dedos para fora e sentiu um novo mundo, sentiu a água no ar, e quis voar pela frestas, deixando-se ir com o vento, querendo estar nos quatro cantos, conhecendo cada caminho, cada pedaço. O sentimento pulava do peito, fazia a garganta fechar, os olhos marejar e o calafrio tocar a pele. Fazia o ar comprimir e a vida pulsar. Ela gostava da sensação, mas tinha medo. Ela gostava do sentimento, mas o colocou de volta na caixa, onde ele estaria seguro, amenizado, dormente. O sentimento não pertence a caixa, ela pertence ao mundo. Ela pertence em cada canto, como o vento. Ela pertence no sentimento.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Ela não veio para uma vida pacata. Não veio para ter uma casa decorada com porcelanas caras e mantas no sofá. Ela veio para sentir o vento no rosto, descobrir novas árvores, sentir cheiros doces e amargos, e principalmente para deixar o coração voar.

Ela clamou diversas vezes que a caneta havia a abandonado, disse algumas vezes que ninguém lia o que ela escrevia, e que suas palavras não faziam mais sentido. Ela procurou sentido em todas as suas palavras, sabendo que elas nunca teriam. A verdade é que a caneta nunca a abandonou, sempre esteve no mesmo lugar, ela que nunca procurava. Ela não precisava que alguém lesse suas palavras, ela precisava que suas palavras exprimissem aquilo que seu coração confuso queria contar.

A vida não é sobre um apartamento pago e um chão encerado. A vida não é sobre rotina e códigos limpos. A vida é sobre lugares e vontades, e ela nunca disse qual era realmente seu lugar.
Seu lugar é o mundo, seu lugar é em cada canto, em cada árvore. Seu lugar é onde o vento a leva.

O coração pulsa, o corpo sente o vento e estremece, sabendo que logo sua vida vai mudar. Será que ela tem coragem?

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

A depressão é silenciosa, e nem sempre tem motivo. Fazem 5 anos que eu não volto aqui, e eu me arrependo disso.

A mente adolescente que um dia foi capaz de traduzir em frases o que o coração explodia hoje tem 24 anos, e não sabe dizer o que ainda é adolescente e o que é adulto dentro de si. A existência humana é repleta de problemas, e eu sempre soube disso. A agonia de ser humano é intensa, é como o oceano, vêm e quebra em ondas fortes e decididas, para então se retrair e trazer o que há na margem para dentro de si.

Minha mente sempre foi intensa, meus sentimentos sempre foram torrenciais e meu coração sempre sofreu com a minha falta de habilidade em lidar com tudo isso, com toda essa intensidade que sou eu. Minha mente lida com isso escrevendo, e eu sempre fui boa nisso, olhando para trás eu vejo isso. A normalidade do dia a dia ameniza a mente difusa, bloqueia a criatividade e entorpece o corpo. A maior inimiga do escritor. É tempo de deixar os sentimentos fluirem novamente, pois reprimidos aqui dentro eles dão espaço para a depressão silenciosa. Minha depressão é fazer meus sentimentos caberem em qualquer espaço, para ser "feliz". E ser feliz é reprimir tudo aquilo que ta aqui? É deixar a vida passar sem propósito, apenas cumprindo tabela e vivendo de forma monótona?

Sempre chamei meu diário de fantasma, pois sabia que só eu via ele, e que de alguma forma todas essas palavras me atormentavam, como um fantasma apegado a uma casa mal assombrada. Deixamos os termos de lado por enquanto, mesmo sabendo que a casa mal assombrada sou eu.

"I promisse to myself, for me and no one else. I am more than this. I am the fire."

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Bem vinda ao meu pesadelo

Acorde em uma caldeira gigante, e você saberá pelo que ela passou. Acordou sentindo seus pés no metal frio, e as mãos cobriam os olhos para não ver. O cheiro é de enxofre, e de carne queimada. Ouvem-se gritos ao longe, e os gritos entram pelos ouvidos como agulhas finas e que encontram a carne e produzem a mais aguda das dores. Ela continua repetindo para si mesma “é apenas um sonho, eu ainda não acordei”, mas ela mesmo sabe que está mentindo. O cheiro é real demais, os gritos são reais, e seus pés gelados também. Suas pequenas mãos estão coladas no seu rosto, impedindo o horror externo de inundar seus olhos. Não sabe como foi parar ali, não sabe o que está acontecendo, mas sabe que o ar pesa em seus ombros, e o terror é tangível. Estenda a mão, e você conseguirá tocar na sua própria agonia.
Ela abre uma fenda em seus dedos para ver aonde está, apesar de já saber antes mesmo de ver. Está na velha caldeira abandonada, e então suas mãos deixam seu rosto para ver que há uma distância perigosa entre o chão da caldeira e seus pés. Sabe que precisa correr, mas não sabe para onde. Olha para cima e vê o teto enferrujado, olhando para ela com puro desdém. Olha para baixo e vê a altura nada acolhedora, e as maquinas funcionando a plenos pulmões. O lugar parece estar vivo e espreitando, esperando um momento de distração para atacar. Olha para os lados e vê sangue escorrendo das paredes, mas não sente o cheiro salgado e metálico que é característico do líquido vermelho, sente o cheiro podre de carne encontrando o fogo. Sua cabeça procura uma explicação plausível, mas não consegue encontrar, e seus olhos paralisam de puro terror.
Ela está na parte de cima da caldeira, onde é possível ver os tonéis enormes com algum líquido duvidoso borbulhando la embaixo. O vapor que sobe beija seu rosto deixando um ar putrefato em suas narinas. Ela anda devagar, se apoiando no corrimão pois sabe que a queda não é gentil. Encontra um corredor que leva a salas de manutenção das caldeiras, e então vem o alívio por não estar mais a mercê da perigosa altura que a separava do chão. Ao longe os gritos sedem aos poucos e ela consegue ver a escada que leva ao andar de baixo. Se conseguir descer estará perto da porta que leva a saída. Anda com toda a calma, na ponta dos pés. Não sabe se tem alguém na caldeira, mas prefere não saber. Anda com os olhos espertos cuidando cada canto. A cada passo seu sangue gela um pouco e as mãos tremem. Os olhos arregalados não piscam e a agonia sufoca a garganta.
Quando a escada se aproxima e quando o suspiro de alívio começa a surgir, um barulho metálico começa aos poucos até se tornar ensurdecedor, parecendo vir de dentro de sua cabeça. Um barulho de metal arrastando metal, de garras de aço passando carinhosamente pelo corrimão da ponte suspensa aonde estava a poucos minutos. Tem medo de se virar pois sabe muito bem quem irá encontrar.
“Então criança, achou que viria me visitar e eu não a convidaria para um chá? Você sabe que eu vou te pegar” O sorriso irônico estava implícito em cada palavra. Virou-se rapidamente para ver apenas a ponte suspensa e as caldeiras abaixo. O gelado da garra retira o cabelo comprido dos ombros, e então ele diz “Bem vinda ao meu pesadelo”. Começa a correr desesperadamente, mas sabe que é inútil. Os gritos deixam sua garganta sem aviso e sem controle, o suor escorre pela testa e os olhos embaçam até sentir seu rosto sendo lavado em lágrimas. Corre para onde há chão para correr, e grita como se seus gritos o espantassem.
Então seus pés paralisam e de uma entrada ao lado ele surge, deixando a luva com as garras saírem antes do corpo. Seu sorriso irônico e genuíno é horripilante, sua face deformada, enrugada e completamente queimada a faz arregalar os olhos. Sua roupa chamuscada, seu chapéu preto e velho e aquela luva com garras não deixam dúvida de quem está a sua frente. Seus olhos lentamente seguem os pés gelados da menina, sobem para as pernas trêmulas, acompanham os punhos cerrado e sobem devagar para fitar seu rosto. E então ele murmura “Ora criança, não precisa fugir, eu não vou te machucar”. Ele olha no fundo dos olhos dela e ela sente a agonia, o terror, o medo e todas as emoções ruins que já sentiu misturadas em um bolo que se forma em sua garganta e explode pelos seus olhos. Ele avança e ela grita com todo o ar que existe no seu corpo. Ele avança com os braços abertos, seus braços ficam mais compridos a cada passo que os aproximam, ele avança com os olhos transbordando seu sadismo, e o sorriso...
Ela acorda ensopada, gritando. Sua mãe está ao seu lado a sacudindo. Em sua barriga há cortes que formam a seguinte frase:
Freddy está atrás de você.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Uma moça em recuperação

Haviam dedos esfregando o seu rosto constantemente, lhe dizendo que não chorasse mais, Nunca entendeu essa fissuração das pessoas com lágrimas, algumas não suportam ver o outro depositando suas emoções em gotas grossas de puro sentimento reprimido. "Haviam muitas coisas queimando naquele momento, inclusive seus cabelos loiros".
Não havia mais o que se fazer a respeito, ela era uma moça em recuperação. Recuperando-se do susto que a vida é. Algum dia em sua vida teve um coração.
Ela saiu pela porta, tentando se livrar dos dedos insistentes que lhe tiravam as lágrimas do rosto. Sentia falta de sua coragem de enfrentar tudo sozinha, agora precisava desesperadamente de ombros e de abraços. Saiu para lembrar as coisas boas da vida, saiu para lembrar o que um dia a feriu. Não sabe para onde ir, não sabe como ir.
Viu muitas coisas em todos esses anos que tenta esquecer agora. Sabe o que a machuca, apertou muitas mãos que nunca mais verá. Olhou em muitos olhos que nunca mais verá o brilho. Dizem que a vida é assim, não é? Muitas coisas passam sem nem dizer adeus da forma apropriada. Olhou para si mesma na janela do carro abandonado no quintal, e viu alguém totalmente diferente do que um dia fora, e não soube dizer se isto é bom ou ruim, Olhou-se na janela e viu um sorriso amarelado, gotas grossas caindo de seu rosto de porcelana, e cabelos loiros atrás de si, que sorriem também. Queria poder abraçar o reflexo da janela empoeirada que lhe mostrava uma realidade que não existe mais, Queria poder entrar naquele mundo fantástico que existia somente em suas cabeças, viver todos os ideais sonhados, todos os sonhos idealizados, e todas as vontades não cumpridas. Queria tudo de volta, por mais que soubesse que o passado é algo que está morto e enterrado atrás de si. Assim como os cabelos loiros e sorridentes daquele que um dia amou.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Alguns dias são melhores que outros.
Tem dias que o cheiro das flores é mais vivo, e o sorriso é mais espontâneo.
Tem dias que a saudade dói de um jeito ruim, dói de um jeito que parece que vai me sufocar.
Eu não entendo, tudo parecia tão errado, nunca poderia dar certo, mas ao mesmo tempo parece tão errado ter arrancado tudo fora.
Minha cabeça está um balão hoje querido amigo. Não sei o que pensar, nem como agir, não sei o que fazer. Esperava que a distância me fizesse entender e concordar com minhas decisões, mas minha mente está turva. Eu mal me entendo.
Desculpa querido amigo, queria ter coisas felizes pra contar.

Eu quero outra pílula, doutor

- Dê-me mais uma dessas pílulas que me fazem esquecer a dor, doutor?
- Querida, tu acabastes de tomar uma, não pode tomar mais outra por algum tempo agora.
- Então porquê essa dor não passa? Faça-a passar, por favor, não aguento mais.
- Você deve ser forte, lutar contra essa dor, e fazer o possível para esquecer tudo isso.
- Eu não sei se eu quero lutar mais, doutor

Essa dor que você deixou em meu peito, insiste em não passar, essa saudade que tenho, insiste em não passar, e porquê você faz tanta falta? Se contigo não era feliz? Eu devia estar bem agora, não? Então porquê não estou?!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Roads - Roadrunner United

The voice of loss is sighing through the rain
And as I turn around
Nothing is to be found
For hours now upon this endless road
Is it taking me
Where I long to be?

Alone

A soaring hope is reeling in my head
I can't remember this
But it must be what I miss
Suddenly I find I'm standing still
Staring at the ground
Waiting for your sound

Again

i can forgive, but i can't forget.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

sensação de vazio e solidão,
sensação de que tudo o que eu mais prezo e menos quero longe de mim, está se afastando aos poucos.
"eu acho melhor você não ir", não era pra doer, mas doeu.

não era pra doer, mas doeu.